segunda-feira, 5 de outubro de 2009

o 5 de outubro

Comemora-se hoje  mais um 5 de Outubro, mais um aniversário da implantação da República.
Durante o Estado Novo, esta efeméride servia de pretexto para as manifestações possíveis da oposição (o reviralho, como lhe chamava a situação).
Hoje, salvo a ternura que lhe dedica a comunidade maçónica, quase ninguém lhe dá importância nenhuma.
A relativa irrelevância da data vem da relativa inutilidade e ineficácia do facto. Mudou o regime de monarquia para república, a família real exilou-se mas, salvo as ininteligentes manifestações de anticlericalismo e algumas violências carbonárias, o sistema político da República foi mais ou menos igual ao da monarquia: um regime parlamentar com governos fracos e caducos, instabilidade política e crise financeira endémica. A República acabou por morrer às mãos da sua própria inépcia e incipiência, e sob o cutelo final do Estado Novo.
O 5 de Outubro, hoje, é mais um feriado em que os lisboetas saem da cidade e ninguém (quase) se dá ao incómodo de concentrar na Praça do Município.
Podia bem servir para que os políticos, os partidos e os titulares dos cargos públicos meditassem sobre a perda de respeitabilidade e de credibilidade das instituições democráticas na generalidade da população, hoje.

domingo, 4 de outubro de 2009

o referendo irlandês

O Tratado de Lisboa foi referendado por 67,1% dos irlandeses, mais de dois terços. Agora faltam apenas a Polónia e a República Checa. Na Polónia, o legislativo já votou, mas o Presidente (eurocéptico, pró-americano) recusou-se a promulgar até que os irlandeses referendassem; agora diz que está à espera dos resultados oficiais, mas vai assinar no princípio da semana. Na República Checa o Tratado de Lisboa foi também aprovado pelas duas câmaras do Parlamento, mas houve dez senadores que pediram a pronúncia do Tribunal Constitucional, e o Presidente (eurocéptico, pró-americano) aproveitou para dizer que não pode promulgar enquanto o tribunal se não pronunciar; mas como o Presidente depende da confiança política das duas câmaras, não poderá manter esta atitude por muito mais tempo.
Agora, a ala mais direitista (leia-se: pró-americana) do Partido Conservador quer que, apesar de já ter sido ratificado pelo Reino Unido, o Tratado seja submetido a referendo mesmo que já tenha entrado em vigor quando (segundo prevêem) vierem a ganha as próximas eleições; o líder tinha dito que só o submeteria a referendo se ainda não tivesse entrado em vigor (leia-se: ainda não tivessem assinado os Presidentes polaco e checo). Na sequência desta atitude, a desvantagem dos trabalhistas baixou 5%.
Não obstante todas estas tentativas (mais ou menos desesperadas) de travar o rumo natural da História, é de esperar que cedo venha a entrar em vigor o Tratado de Lisboa.
A União Europeia ganhará eficácia na acção, o Parlamento Europeu ganhará maiores poderes e passará a ser melhor fiscalizado pelos Parlamentos dos Estados Membros.
A Europa, com os seus mais de 500 milhões da habitantes e a maior economia do mundo, tornar-se-á cada vez mais relevante. Cessará a relativa fraqueza consequente da sua fragmentação.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

como o inglês no uganda

O meu avô contava-me que os ingleses, no Uganda, vestiam-se de smoking para jantar, nem que estivessem numa tenda no mato. Era a maneira de não se deixarem cafrealizar. Tinham um conceito alargado de natureza que incluída as trovadas, os crocodilos, as montanhas, o capim, as cobras e os governantes locais. Encaravam tudo isto como uma inevitabilidade, mas não se misturavam.

Como Portugal se está a tornar Uganda, Commonsense vai tornar-se um «inglês no Uganda»: o dia, a noite, o vento, o mar, os bichos, o ladrões, os corruptos, os recebedores-de-comissões, os arranjadores-de-negócios, os compradores-de-jornalistas, os pagadores-de-políticos, os jornalistas e os políticos, a escom, a mota/engil, o jorge coelho, o isaltino, o valentim loureiro, a fátima felgueiras, o paulo pedroso, o sócrates, o eleitorado, os traficantes e os drogados, os pedófilos e os seus advogados, os banqueiros e os agiotas, tudo isto é inevitável e faz parte da natureza. É preciso viver com tudo isso, sem me misturar nem me cafrealizar. E não vale a pena dar murros em pontas de facas.

Como já não há os ingleses que andavam no Uganda nem o Uganda desse tempo, numa actualização imprescindível, Commonsense será aqui como um Europeu em Portugal.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

o sexo dos anjos

A UE vai abrir um processo de défice excessivo contra Portugal.
O Governo Português vai ter de propor à Comissão Europeia políticas e medidas concretas tendentes à redução do défice. Commonsense não está a ver, nem um Governo capaz de o fazer, nem que políticas e medidas tendentes à redução défice poderão ser propostas pelo futuro Governo, seja ele qual for.
Se Portugal não propuser um plano concreto e credível de redução do défice ou este não for aprovado, a Comissão Europeia passará a reter os fundos comunitários (ou parte deles) que deixarão de ser recebidos em Portugal.
Os Portugueses parecem os Bizantinos, a discutir o sexo dos anjos, talvez para deixarem olhar aquilo que não querem enfrentar.

finalmente, uma supervisão credível

Jean-Claude Trichet, Presidente do Banco Central Europeu, apoiou publicamente a criação de uma autoridade europeia de supervisão financeira, incluindo, banca, bolsa e seguros. Em declarações perante o comité económico do Parlamento Europeu, Trichet disse: “it is the right step to set up a body specifically responsible for macro-prudential oversight”.
A unificação da supervisão financeira, que tinha sido proposta pela Comissão Europeia em 23 de Setembro, ficou assim muito reforçada.
Sob a égide do Banco Central Europeu e beneficiando do seu prestígio e fiabilidade, serão assim substituídas as supervisões nacionais, cuja falha clamorosa na presente crise financeira não permite que sobrevivam por mais tempo.
Há alguns anos já, as pessoas mais atentas manifestavam falta de confiança no actual sistema de supervisão, disperso por cada Estado Membro, por causa do fenómeno conhecido como «captura do supervisor» que permitia que a excessiva proximidade entre supervisor e supervisados conduzisse a uma perigosa «complacência» no exercício da supervisão. Esta «complacência» - chamemos-lhe assim - teve um papel pesado nesta crise financeira, notório em Portugal no «caso Constâncio».
A reforma da supervisão financeira com a sua concentração no ECB constitui um passo muito importante para a reconstrução do sistema financeiro europeu e a recuperação da sua credibilidade.
(Nota: este assunto não suscitou o interesse do pequeno mundo dos jornalistas portugueses)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

o pequeno mundo dos jornalistas 2

Por jornalistas do DN, foi noticido um e-mail entre jornalistas do Público, segundo o qual um jornalista de Belém teria dito a um jornalista do Público, que haveria escutas ou actividades semelhantes em Belém.
De Belém ninguém disse nada, tendo apenas sido demitido o jornalista de Belém.
Os jornalistas e os políticos exigiram de Belém esclarecimentos. Belém deu os esclarecimentos.
Estes esclarecimentos foram poucos porque a história também não era muita.
Neste momento, nas televisões, jornalistas entrevistam jornalistas e criticam Belém.
Continuamos reféns do pequeno mundo dos jornalistas.

o pequeno mundo dos jornalistas

Estive em Berlim a última semana da campanha eleitoral. Lá debatia-se a próxima geração. Aqui discutia-se o que os jornalistas traziam à discussão.
Em Portugal a política, a actividade cívica... e até o futebol... tudo é determinado pelo que os jornalistas pensam e dizem.
Estamos reféns do pequeno mundo dos jornalistas.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Bons resultados na Alemanha

Ao contrário do que se passou aqui, as eleições na Alemanha propiciam estabilidade governativa numa coligação entre o CDU-CSU e o FPD.
A Alemanha via conseguir assim ser governada para a saída da crise económica. Vai continuar a não admitir a entrada prematura da Turquia na UE, vai ter capacidade para se adaptar ao Tratado de Lisboa e para continuar a ser a locomotiva económica da UE.
O Ministério das Finança parece que irá para os liberais, o que é bom para reduzir o défince e o peso excessivo da Estado na economia.
Entretanto, a UE vai abrir um processo de défice excessivo a Portugal. Outra vez. Agora é que vai começar o fim da festa. Por onde é que Sócrates vai poupar no défice? Aceitam-se sugestões.

domingo, 27 de setembro de 2009

Eu sou um europeu que nasceu aqui

É engraçado como se perde uma eleição que até o Rato Mickey ganhava. O PSD da Manuela encostou tanto à direita que perdeu o centro e não estou a ver bem como, quando ou mesmo se alguma vez o virá a recuperar.
O que me anda a parecer é que CDS e PSD cada vez são mais a mesma coisa (qualquer dia fundem-se), que o PS é cada vez mais PSD e que eu cada vez tenho menos a ver com tudo isto. Estou mais interessado nas eleições alemãs e, para a semana, no referendo irlandês.
Enfim, este povo tem o que merece. É rasca, é reles e é medíocre, mas é democrático. O parlamento e o governo vão ser a imagem da nação.
Quando recentemente estive na Bélgica, perguntei a um comissário com quem jantei se era possível ter a cidadania europeia sem ter de ter uma de um Estado Membro. Disse-me que não. Mas nada me impede de, pessoalmente, só assumir a cidadania europeia.
Eu sou um europeu que nasceu aqui.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

per carità

Tirem-me dali o Sócrates


per carità !

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

...e ainda pior...

Como se não chegasse, agora foi o Conselho Superior da Magistratura a «congelar» a classificação do Juiz que acusou o Pedroso no processo Casa Pia. Segundo a imprensa, este «congelamento» foi provocado pelos três socialistas de serviço no Conselho e por causa da acusação que formulou contra Pedroso.

Com esta prática, ficam os demais magistrados a saber que quem acusar socialistas importantes, por exemplo, Sócrates, vai ser prejudicado na sua classificação e, portanto, na sua carreira.

Isto é demasiado grave. Depois das pressões sobre o Ministério Público, sobre a comunicação social, sobre os funcionários públicos, sobre os empresários, etc., etc., agora são os próprios Juízes que são despudoradamente pressionados, condicionados, ameaçados, «congelados».

É mesmo tão grave que ainda me vai levar a reconsiderar a minha opção pelo voto branco: é que, por mais que me custe votar na Manuela e nos seus anõesinhos, repugna-me vir (ou continuar) a ser governado... por «isto».

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

...de mal a pior...

Esta demissão de Fernando Lima é muitíssimo estranha. Conheço-o dos meus tempos de política activa e custa-me a acreditar que tenha feito o que quer que seja sem instruções específicas ou sem a aprovação expressa do Presidente da República. Ao afastá-lo, o Presidente fica enfraquecido: os seus apoiantes mais próximos não vão confiar nele da mesma maneira.
Por sua vez, o enfraquecimento político do Presidente é péssimo para o País. Na falta de maiorias, a próxima solução de governo necessita de uma mediação presidencial e pode mesmo vir a precisar de um reforço da intervenção da Presidência da República na governação durante o próximo quadriénio.
Vejo com muita preocupação a situação política, em Portugal, a degradar-se aceleradamente, quando é previsível o agravamento da situação económica e o aprofundamento da crise social.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

the day after

Muito mais do que o que se diz e faz nas campanhas, nos debates e até nos gatos fedorentos, interessa-me o que se fará quando isto tudo passar, seja qual for o governo... no dia seguinte.
Olhando para situação da economia e das finanças, as perpectivas são péssimas. O próximo governo, seja ele qual for, vai ter de tomar medidas draconianas. Não sei quais serão e nem me apetece pensar nisso.
Mas, já agora, recordo que, na Hungria, o IVA foi subido para 25% (com um efeito dramático nos preços) e a função pública foi reduzida a 12 meses por ano.
Pensem nisto.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

crisis, what crisis?

Do Correio da Manhã de hoje:

Bastonário paga jantar de 300 euros com ministro

A reunião de "alto nível" realizada na Ordem dos Advogados há uma semana, que juntou Marinho Pinto, Alberto Costa, Pinto Monteiro e Noronha Nascimento, acabou também com um jantar de "alto nível" num dos mais caros restaurantes de Lisboa. Já sem o presidente do Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento, o bastonário da Ordem dos Advogados, o ministro da Justiça e o procurador-geral da República jantaram no Gambrinus, e a refeição, regada com uma garrafa de tinto ‘Evel Grande Escolha’ de 2004 – que naquele restaurante custa 96 euros –, ascendeu a perto de 300 €, segundo apurou o CM.

Nota 1: Este Bastonário começou o seu mandato a criticar as despesas dos anteriores membros da Ordem no Gambrinus
Nota 2: O Gambrinus é conhecido como «a cantina da Ordem dos Advogados»
Nota 3: Cantaria o Zeca Afonso: Eles comem tudo e não deixam nada...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

...tudo é vaidade e vento que passa...

Enquanto estive fora, não vi nenhum debate, não ouvi, não conversei e não discuti sobre as legislativas.
Estive rodeado por uma paisagem linda, que não queria estragar.
Depois de amanhã parto para Berlim, a respirar civilização.
Continuo a não ter a intenção de ver debates ou entrevistas.
Os protagonistas são tão previsíveis, tão predictable, que não vale a pena.
Restam os jornalistas (e os analistas) a decretarem quem ganhou e quem perdeu.
E assim se ocupam, se interessam, se emocionam, se convencem de que existem e se envaidecem de si mesmos.
Como diz o Eclesiastes: Vaidade, vaidade! Tudo é vaidade e vento que passa.