terça-feira, 28 de abril de 2015

a onda


A onda na terra é diferente da onda no mar. Explode na rocha ou espalha-se na praia. E acaba.
No mar, a onda começa lá ao fundo, uma ruga no horizonte. Vai crescendo e aproximando. Interroga-nos: passa à proa, passa à popa... ou passa por nós?
Quando passa por nós, tudo se agita. O barco acelera, o controlo perturba-se, tem de ser corrigido com atenção... ou é a onda que passa a mandar em nós.
Enquanto a onda passa tudo é energia, é intenso, veloz, vertiginoso.
Depois, de repente, a onda descola. Caímos na cova, amolecemos, perdemos velocidade, parece que parámos.
A onda segue a sua viagem do outro lado. Igual à que era. Vai diminuindo até se tornar uma ruga no horizonte. Do outro lado do mar.

Entretanto, do lado de cá, no horizonte, uma onda começa a espreitar. Vai passar à proa, vai passar à popa... ou vai-nos levar com ela?
Foi sempre assim. Será sempre assim.
Atrás duma onda vem sempre uma nova onda.

sábado, 21 de março de 2015

delatantes


Este caso da lista VIP causou-me náusea.

Um Director-Geral - da Autoridade Tributaria – deu instruções aos serviços. 

Uma delas permitia uma interpretação equívoca - de má é – que a tornaria reprovável.

Um funcionário, em vez de chamar a atenção da chefia – como devia –, foi delatar ao Sindicato.

O Sindicato foi delatar aos Jornais.

Os Jornais foram delatar à Oposição e à Opinião Pública.

A Oposição foi delatar ao Parlamento.

O Parlamento fez uma Comissão de Inquérito e julgou o Director-Geral.

O Governo lavou as mãos e demitiu o Director-Geral.

Lição:

O Director-Geral errou ao julgar – ingenuamente – que podia contar com uma relação de lealdade de parte dos seus funcionários. 

Não podia.

Hoje, em Portugal, a relação de qualquer Director-Geral com os seus funcionários não é de lealdade funcional, é de inimizade, de desconfiança e de delação.

Pobre Pátria!

domingo, 15 de março de 2015

o pequeno mundo dos jornalistas

Os jornais diários sempre me causaram alguma angústia. Como noticiar todos os dias numa terra onde pouco ou nada acontece. Fechar o jornal, todas as noites, deve ser um sofrimento.
Hoje de manhã fui à internet ler jornais portugueses.
Já só leio um jornal em papel, o Economist, que assino e recebo todas as segundas feiras. Não concordo com tudo - e porque é que havia de concordar - mas tenho leitura para a semana inteira, sobre tudo o mundo, mais economia, mais ciência, mais literatura...
Leio ainda o Finantial Times, na net. É um jornal cujos leitores querem que diga a verdade, porque precisam da verdade para não fazerem maus investimentos. É puro e duro.
Depois vou ler o produto do pequeno mundo dos jornalistas portugueses. Quase só publicam opinião. Mesmo quando publicam sobre factos, não relatam, opinam. Dão aquela opinião estafada a la bloco de esquerda que constitui a atmosfera que respiram. Quando bebem o seu whisky à noite ou o seu café de manhã, eles estão seguros, têm a certeza de ser aquela a sua missão na vida: pregar aquele sermão aos peixes. Os peixes são os seus leitores, silenciosos e fiéis. Ao lerem o sermão, confirmam aquilo que já pensavam.
Há um consenso perfeito entre as opiniões do pequeno mundo dos jornalistas e as opiniões do pequeno mundo dos seus leitores.

sábado, 14 de março de 2015

não sabe / não responde

As sessões da Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES/GES ficaram célebres pelo uso do artifício de não saber ou não recordar para não responder. Foi mesmo escandaloso no caso de Bava.
Não é muito inteligente.
A prova judiciária, diversamente da prova científica, é a livre convicção do juiz, assente no exame crítico das provas produzidas e demais circunstâncias do caso, assente na sua prudência, experiência e na razoabilidade.
Não adianta dizer que não sabe ou não recorda quem é óbvio que sabe e que recorda.

domingo, 23 de novembro de 2014

a culpa é do culpado

Há quem ache que temos culpa pela vergonha do Sócrates: um ex-Primeiro
Ministro ser detido desta maneira, acusado destas coisas...
Será que temos culpa, como ente coletivo (isso existe, culpa coletiva?) por ter eleito (eu não) Sócrates para dois mandatos de primeiro ministro, por termos eleito Isaltino (eu não), por termos nomeado o presidente do Instituto dos Registos e Notariado (eu não) e o Diretor do CEF (eu não), por termos entregado o BES a Ricardo Salgado (eu não), por termos designado PGR Pinto Monteiro (eu não). E etc.
Não, nós (como ente coletivo) não temos culpa porque a culpa nunca é coletiva, é singular, individual e pessoal (eventualmente em co-autoria).
A culpa é de Sócrates, de Isaltino, de Carlos Cruz, de Ricardo Salgado, de quem for no caso concreto.
Aludir a culpa coletiva é desculpar o culpado.

domingo, 26 de outubro de 2014

pobres e ricos


Lê-se por todo o lado e começa a ser opinião comum que a principal dificuldade da União Europeia (UE) vem dos emigrantes de leste, romenos, búlgaros e outros pobres, que sobrecarregam os orçamentos da segurança social dos Estados Membros ricos, Reino Unido, Alemanha, França, Holanda, etc. Pior ainda, há emigrantes clandestinos que chegam em hordas às praias do sul, vindos do outro lado do Mediterrâneo, do Islão e África sub-saariana. É preciso acabar com a liberdade de circulação de pessoas (Schengen).

É preciso fazer contas. A crise financeira da UE não vem das migrações dos pobres para os Estados Membros ricos. Não, não foi isso e não é isso.

A crise financeira Europeia, vem da migração das práticas desonestas dos serviços financeiros americanos para a praça de Londres e daí para todas as praças financeiras da Europa comunitária. A colocação de produtos tóxicos (leia-se: lixo) nas carteiras e contas de poupança dos clientes, a falsificação dos balanços (contabilidade criativa), a apropriação de bónus e vencimentos milionários pelos gestores, a alavancagem excessiva e ilegal, etc., destruíram a credibilidade do sistema financeiro, provocaram a ruína dos países, a falência das empresas, o desemprego, a destruição dos lares e das famílias, o desespero, a proletarização.

Não, não é a liberdade de circulação das pessoas que tem de ser controlada ou limitada; é da liberdade de circulação dos capitais que se trata. E aí que está o problema.

As culpas não são dos pobres, são dos ricos.

domingo, 5 de outubro de 2014

mais ou menos a mesma coisa

Quinze dias fora de Portugal.
Passou-se alguma coisa?
Não.
Por fora, ninguém sabe bem como reagir com inteligência ás selvajarias e provocações do IS nem à crise da Ucrânia.
Por aqui continua...
... tudo mais ou menos a mesma coisa.

sábado, 13 de setembro de 2014

ddt - o dono deles todos

Ao impor uma «fire sale» do Banco Novo, os banqueiros portugueses fizeram valer a sua soberania  oligárquica sobre o Banco de Portugal e os Portugueses. Vai ter a triste sorte do BPN a acabar comprado por um preço baixinho por alguma off-shore ou veículo estrangeiro cujo «último beneficiário» até poderá ser o próprio Ricardo Salgado.
Ricardo deixou de ser o «dono disto tudo» mas continuou a ser o «dono deles todos».

terça-feira, 9 de setembro de 2014

lavadeiras de Portugal

Desde que explodiu a crise BES/GES, o tom e o conteúdo da impressa portuguesa foi variando.
Primeiro concentraram no Ricardo Salgado em pessoa.
Depois evoluíram para a família Espírito Santo em geral, como se fossem todos culpados.
Em seguida mudaram de tema para a separação do Banco Novo e do Banco Mau.
Finalmente só falam no Banco de Portugal, no Carlos Costa, no BCE...
A sigla DDT (dono disto tudo) deixou de designar o Ricardo Salgado e passou para o BCE...
E assim se vai lavando, lavando, lavando a imagem do Ricardo na comunicação social... até que já não haja Ricardo nenhum, ninguém se pergunte onde foi parar o dinheiro.

As lavadeiras de Portugal são mesmo as empresas de imagem e as empresas de comunicação social.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

uma frota de 10 submarinos e tal


Na fraude BES/GES desapareceu um valor correspondente a uma frota de 10 submarinos NRP Tridente (na imagem). O Tridente custou aproximadamente 679,3 milhões de €uros. Na fraude BES/GES desapareceu valor de  aproximadamente 7 mil milhões de €uros, o que dá para 10 submarinos NRP Tridente e ainda sobra.
Commonsense acha bem a compra destes submarinos - que aliás deveriam ser três, para terem toda a sua operacionalidade. Sem eles, a Marinha Portuguesa, seria uma anedota e não seria levada a sério por ninguém.
E não digam que foi caro. Caro, muito caro, foi o banqueiro Ricardo.

sábado, 16 de agosto de 2014

a reforma do regime

A reforma do regime tem de começar pela abolição do Tribunal Constitucional e pela atribuição das suas competências ao Supremo Tribunal de Justiça, esse sim um verdadeiro Tribunal.
Sem isto nenhuma reforma do regime será possível, porque o actual Tribunal Constitucional considerará todas mudanças inconstitucionais com invocação da violação do princípio da confiança.

os pobrezinhos

Apareceu por aí, no Facebook e nas mesas dos jantares, dos almoços, nas areias da praia, nos bares dos copos e nos copos do bares, e por todo o lado, que já havia membros da Família em dificuldades, por lhes terem sido «congeladas» as contas no BES velho.
Não vi ainda ninguém carpir as mágoas daqueles - fora da Família - que confiaram as suas poupanças ao BES/GES e que simplesmente ficaram sem elas. Também os há com dificuldades de dinheiro no dia-a-dia por causa disso.
A diferença é que uns têm uma espécie de direito natural a serem ricos e os outros não.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

€uros, muitos e de qualquer maneira

Ele é tão lindo o dinheiro. Mas na medida certa. De menos faz falta; de mais, enlouquece.
Não nasce nas árvores nem nas folhas de EXCEL.
Também não é criado por contabilidade criativa, muito menos pela falsificação das contas.
É um bem raro que tem de ser bem administrado. Para isso criaram-se o Bancos, que captam o dinheiro inerte nas poupanças e o mobilizam para o investimento. Os Bancos são imprescindíveis para uma economia saudável e próspera. Mas têm de ser geridos por pessoas sérias, prudentes, inteligentes de competentes.
Não podem ser entregues a a tontos nem a loucos, que se limitem a herdá-los
Nos últimos cinco anos, faliram três Bancos em Portugal. Todos eram geridos por pessoas movidas pela ganância - greed - tontos e loucos, que com eles quiseram apenas ganhar €uros, muitos e de qualquer maneira. Apropriaram-se do dinheiro dos clientes como se fosse seu e fizeram-no desaparecer.
Têm de ser presos e presos ficarem ate que devolvam o dinheiro que desapareceu e do qual Commonsense pensa que se apropriaram.

a Escócia independente e a União Europeia

Próximo setembro vai ocorrer o referendo sobre a independência da Escócia. Os dois lados - Better Together (pela união) e Yes Scotland (pela independência) - estão muito próximos e qualquer deles pode ganhar. Segundo os analistas um apoia-se na racionalidade e outro na emoção.
Um dos argumentos usados pelo Better Together é o de que uma Escócia independente teria de requerer ex novo a adesão à UE. Este argumento, que foi suportado pelo incrível Barroso, é falso porque implicaria que os Escoceses fossem expulsos da UE por terem exercido a democracia. É claro que, independentes ou não, os Escoceses continuarão a deter a cidadania europeia.
O que existe de preocupante neste referendo é que o resultado vai ser muito próximo, a maioria muito curta e o poder de convicção ténue.
O debate da independência da Escócia vai continuar depois do referendo, seja qual for o resultado.
Commonsense apoia a independência da Escócia. Por razões históricas ligadas ao massacre dos católicos, por razões ideológicas porque os escoceses têm o direito de não serem governados pela City of Westminster e pelos Financial Services mais crooked do mundo, porque a Escócio independente virá reforçar a União Europeia e enfraquecer o movimento anti-europeu, e finalmente porque os escoceses têm direito à autodeterminação.

  

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

mixordeiros financeiros


Antigamente havia os mixordeiros. Eram gente que adulterava e vendia géneros alimentícios adulterados. Azeite com mistura de óleo, leite com água, chouriços com carne estragada, etc. Eram perseguidos e incriminados pela Inspeção Geral das Atividades Económicas. Eram crimes contra a saúde pública. Isto no tempo do Salazar. Ainda hoje está previsto no artigo 282º do Código Penal «corrupção de substâncias alimentares ou medicinais».
Imaginemos o que seria se os postos de abastecimento fornecessem gasolina e gasóleo adulterados, misturados sabe-se lá com quê, sem as caraterísticas devidas. E as farmácias... e aí por diante?
Agora há mixordeiros financeiros, que produzem e vendem produtos financeiros adulterados. Só que, agora, não são são incriminados. Atira-se para cima do comprador-consumidor o ónus de se aperceber e separar o trigo do joio – caveat emptor. O melhor é não lhes comprar nada e fugir deles.